ARTIGOS

UMA HISTORIA DE AMOR NO SERTÃO DE GOIÁZ DE 1936

O CASO DE DOLORES E DULCE

ELISEU RISCAROLI1

 

Professor adjunto da Universidade Federal do Tocantins – Campus de Tocantinópolis, Dr. em Educação pela UFSCar. E-mail; drtoca@hotmail.com

blog http://masculinidadesegenero.wordpress.com

Resumo:

O amor alheio sempre incomoda. A felicidade alheia incomoda. Se este amor ou felicidade for resultante da sexualidade carnal entre duas pessoas do mesmo sexo, ele incomoda mais ainda. Como bem disse o ministro Ayres Brito no relato da ADIN 4277 “nada incomoda mais as pessoas do que a preferencia sexual alheia, quando tal preferencia já não corresponde ao padrão social da heterossexualidade“. O presente texto é o regate e uma reflexão do processo crime movido contra Dolores Britto no ano de 1936, no sertão de Goiáz, comarca de Pedro Afonso, por Lourença Barbosa Ramos, mãe de Dulce Barbosa Ramos, quando estas desfrutavam de um caso amoroso tido como imoral aos padrões da época, cujo objetivo era assegurar a integridade da filha. Queria a mãe assegurar a sua integridade ou tinha esta ciúmes da filha e seu caso? Era imoral? Desvendar a trama contra Dolores e seu amor, cujo preconceito e discriminação tinha, até então, por fundamento a medicina e a religião, agora terá a lei via um processo crime. Não se cogita aqui a feminilidade para gerar filhos, caberia a mãe, segundo Foucault, a transmissão da norma e da disciplina, muito embora a mulher tenha sido reduzida a condição de mãe. Assim, só amar sem cumprir o ‘destino’ da procriação afronta a sociedade, afronta também as outras mulheres, afronta a sociedade fundada na heteronormatividade. Aqui, Dolores afronta com sua sexualidade, tal qual Madalena em São Bernardo afrontou Paulo Honório ao ‘domesticar’ o macho para tê-lo como homem.

Palavras-chave: homoerotismo, amor, lesbianismo, sexualidade, crime.

O Cenário

É o mês de março. Chove torrencialmente no Goiáz, mesmo assim o povo brinca carnaval como nas demais vilas e cidades, um misto de festa religiosa e profana, não importa se estamos numa vila ou numa metrópole. No sertão do Goiáz não é diferente. A única diferença é o fato que se avizinha no carnaval de 1936, na comarca de Pedro Afonso na confluência dos Rios do Sono e Tocantins, rincão de Goiáz, hoje Tocantins. A vegetação exuberante em virtude das chuvas deixa a paisagem verde em diferentes tons. Estamos numa região onde os diversos tipos de palmeiras dão ao cerrado um aspecto que não tem aquela visão de aridez e pobreza comum no sertão da Bahia ou

outras áreas do nordeste. É bem verdade que a pobreza insiste em rondar estas paragens. Dos diferentes tipos de palmeiras, destaca-se o buriti e o babaçu, fonte de subsistência de milhares de famílias destas vilas que vão desde o Piauí até parte do Pará. Do babaçu, às machadadas, as mulheres do sertão cortam o coco para extrair dele o óleo que nas festas grandes servirá como componente dos cozidos e assados extraem o leite, fazem carvão da casca, sabão do mesocarpo, catam o gongo e fritam misturado a farinha como parte da alimentação cotidiana. Os homens tiram madeira e palha para cobrir as casas, que no verão escaldante dos meses de julho a setembro amolece os ânimos e a vontade de trabalhar. Os regatões sangram o Tocantins levando castanhas, coco babaçu, pequenos viveres e partem em direção a Porto Imperial ou a Belém. Voltam carregados de açúcar, ferramentas, tecidos e outras dezenas de quinquilharias que são devoradas pelos habitantes das vilas, cujas contas vão sendo anotadas nas cadernetas para serem pagos com a nova colheita do coco, da mandioca ou de grãos parcamente produzidos nas margens dos rios e suas vazantes. Vez por outra, a rotina e quebrada pelos folguedos do carnaval, malhação do judas ou alguma festa de padroeiro que alegra a vivencia do povo, que a mercê do governo da republica, faz sua vida e produz sua existência, por vezes longe dos olhos daquilo a republica ditou como sendo regras de convivência no grotões de Vila de Goiáz. É neste cenário que vivem Dolores e Dulce, duas jovens, que a despeito da moral e dos ‘bons costumes’, ousaram em seu caso de amor que foi levado ao tribunal , pois estabeleceram um contrato cujo objeto era o amor. Não obstante, por inveja, fofoca, ou seja, qual for o motivo, o amor delas foi alçado ao tribunal como algo que maculava a vida de Bella Vista e da sociedade Pedroalfonsina. Incrustrados no sertão de Goiás, os mesmos que alegam a deturpação da moral frente a conduta das jovens, esquecem-se do principio maior de sua própria fé: “amar ao próximo como a ti mesmo” ou se quisermos sermos mais diretos esqueceram do “deus é amor”.

Personagem Idade Profissão Est. civil Escolaridade
Lourença   Barbosa Ramos (mãe) 55 Do   lar Casada Alfabetizada
Dulce   Barbosa Ramos (filha) 23 Do   lar Solteira Alfabetizada
Dolores   Brito 20 Funileira Solteira Alfabetizada
Joshefina   Ferreira de  Loreto 26 Do   lar Solteira Analfabeta
Raimundo   Barreira de oliveira (tio de Dulce) 55 Lavrador Casado Alfabetizado
José   do Rego Sobrinho   Escrivão   Alfabetizado
Otílio   Elisio Guimarães   1º   tenente   Alfabetizado
    Delegado   Alfabetizado
José   Tavares dos Reis   Escrivão   Alfabetizado
Teotônio   Rocha   Sub   promotor   Alfabetizado
Joaquim   Pinheiro Lemos   Juiz   de direito   Alfabetizado
Augusto   Carneiro de Sá   Suplente   de Juiz   Alfabetizado
Eudasio   Caiado Testemunha  
         
         
         
         

A INFANTILIZAÇÃO DO LUDICO E DO BRINQUEDO
revendo a prática pedagógica na educação infantil (1)

Eliseu Riscarolli 2
Josete Marinho de Lucena 3

RESUMO
Temos assistido ao longo dos anos uma valorização do lúdico na educação infantil e com isso a ‘descoberta’ do brinquedo. O que nos remete a uma questão fundamental: é preciso pedagogizar o brinquedo para compreender sua função na aprendizagem? Para responder esta questão vamos tentar compreender a função do brinquedo, na perspectiva de alguns autores como Gramsci, Piaget, Benjamim, Brougère entre outros, que utilizaram o brinquedo como forma de refletir sobre como a criança constrói estratégias de aprendizagens, sem obrigatoriamente infantilizar ou pedagogizar uma criação que a criança usa nas brincadeiras ou como forma de brincar. Entender o brinquedo enquanto um objeto que tem ‘apenas a possibilidade de aprender’ sem necessariamente impor uma aprendizagem por meio de um brinquedo. Creio ser
urgente que a pedagogia reflita sobre um equivoco, qual seja, transferir ao brinquedo
uma capacidade de ensinar que deveria ser do professor, se e quando se propuser a
refletir sobre a práxis e suas consequências, por exemplo numa atividade pedagógica. O que dever ser pedagógico é a ação do professor ao analisar a forma, as estrategias, os recursos, a metodologia que a criança usa na brincadeira, no exercício com o brinquedo. Parece pouco inteligente atribuir ao brinquedo uma função pedagógica quando ele não a tem. Um brinquedo é para ser usado como tal, e não como recurso pedagógico.
Palavras chaves: brinquedo, infância, currículo, ludicidade.

Iniciando a conversa…
Não é de hoje que os educadores tomam o brinquedo/brincadeiras e o lúdico como algo ‘necessário’ ao ato pedagógico. Essa necessidade é discutível, tanto do ponto de vista das estratégias, quanto dos resultados com eles alcançados. Vamos começar a conversa considerando alguns aspectos em relação ao brincar. Se tomarmos a questão filosófica, o brincar é abordado como um mecanismo para se contrapor à racionalidade. Reportando-nos ao jogos olímpicos gregos, os mesmos eram tidos como um momento lúdico, sem a preocupação antecipada de usa-los como estrategias de aprendizagem, é bem verdade que se aprende nos jogos nas brincadeiras, todavia a ‘receita’ não nasceu com o jogo. Aqui emoção e razão são parte da ação humana. Por outro lado, no viés sociológico, o brincar tem sido visto como a forma mais pura de inserção da criança na sociedade. Brincando, a criança vai assimilando crenças, costumes, regras, leis e hábitos do meio em que vive. Age e reage às adversidades que o brinquedo lhe apresenta. Muda regras, reorganiza, cria alternativas para satisfazer suas necessidades momentâneas.
Considerando o ponto de vista psicológico, o brincar está presente em todo o
desenvolvimento da criança, nas diferentes formas de modificação de seu comportamento; e, quando se toma como base o pedagógico, o brincar tem-se revelado como uma estratégia poderosa para a criança aprender. Mas creio que o fundamental nessa conversa seja considerar a criatividade da criança, tanto o ato de brincar como o ato criativo estão centrados na busca do “eu”. É no brincar que se pode ser criativo, e é no criar que se brinca com as imagens e signos fazendo uso do próprio potencial (Santos. 1999.).
Eis aqui um equivoco… o que frequentemente vemos, são professores querendo
moldar a brincadeira para satisfazer uma necessidade sua, de educador, atribuir ao
lúdico uma função de aprendizagem que ele não tem. A aprendizagem é uma
característica que o sujeito desenvolve. Uma das tarefas do professor é, ao observar a criança brincando, transformar o modo como ela age/interpreta a/na brincadeira numa sistematização metodológica do processo, mas não dizer como se brinca metodologicamente, muito menos que tal brincadeira serve pra esta aprendizagem ou aquela. Isso, de certa forma já vem implícita na brincadeira, embora a criança “não saiba”. O que caberia ao professor é identificar os passos dado pela criança nesta ou naquela brincadeira; porque crianças de lugares diferentes arrumam estratégias diferentes para uma mesma brincadeira; bem antes de algum professor querer enquadra-la. Refletir sobre como a criança cria passos durante a aprendizagem e não formatar as brincadeiras e trona-las enfadonhas.
Brincadeira está intimamente relacionado a brinquedo. Pipas, carrinhos de
rolimã, bonecas, pião, bola de gude, entre outros, são produtos da cultura, que antes de ser um legado, é uma construção. Se considerarmos que nos E.U.A as crianças tem, em média, 20 brinquedos durante a infância; na Europa cerca de 34 brinquedos e no Brasil apenas 6, podemos inferir que isso também limita a criatividade e imaginação da criança. Quanto menor o numero de instrumentos disponíveis para a criança em suas brincadeiras, menor a percepção de possibilidades e formas de brincar. É verdade que se uma criança não tem brinquedos, ela os fabrica, todavia, isso é fruto também do legado de sua família, do grupo social do qual faz parte, do que Bourdieu chamaria de “capital incorporado das brincadeiras”. Mas também é preciso saber diferenciar brinquedo, brincadeiras e jogos. Se os brinquedos podem trazer embutido um conjunto de regras, eles são passiveis de serem quebrados, readaptados, colados, desviados de função inicial. Por sua vez as brincadeiras são mais flexíveis, já que não chegam aos brincantes em caixas. Vem pela lembrança, pela memória, assim sofrem maiores e constantes modificações durante a execução da brincadeira. Ainda resta deixar claro que os jogos não serão objeto de reflexão neste momento, apenas recorremos a uma conceituação para que, na curiosidade natural do Homem, os leitores já tenham previamente, algum esclarecimento sobre estas diferentes atividades/objetos que permeiam a vida das crianças e por vezes também dos adultos. Diferente das brincadeiras e dos brinquedos, o jogo não se presta apenas as crianças, tem regras mais rígidas, não tem por função entretenimento, mas sobretudo percepção de estrategias, rapidez, cercear a liberdade do outro jogador e por fim, vencer.

Conceitos
Segundo Brougère, brinquedo é:

“produto de uma sociedade dotada de traços culturais específicos [...] é menos uma representação do real que o espelho da sociedade, quer dizer das relações entre crianças e adultos. Não condiciona a ação da criança [...], trata-se antes de tudo, de um objeto que a criança manipula livremente, sem estar condicionado a regras ou
princípios de utilização de outra natureza [...] ele é também um objeto de investimento afetivo, de exploração e de descoberta, sem se inserir num comportamento lúdico. É o suporte para a brincadeira” (2010. p. 7ss).

Por sua vez, brincadeira é: “comportamento livre e consentido sem objeto de resultado, exceto o prazer, possibilitando aquisição de códigos culturais”. E como terceiro recurso a atividade lúdica pedagógica se configura como atividade direcionada pelo professor para atender um objetivo relacionado a aprendizagem. Cremos ser este o ‘xis’ da questão: o/a professor/a não consegue diferenciar conceitualmente essas três atividades e com isso, rotula ou estabelece, erroneamente, que o brinquedo ou a brincadeira deve atender esta ou aquela finalidade. As vezes chego a me perguntar se o professor sabe diferenciar desenvolvimento de aprendizagem. Será que ele compreende que o primeiro é endógeno e a segunda exógena (Macedo & Passos. 2005). Embora aja uma estreita e intrínseca relação entre as duas coisas, o professor deve ser capaz de identificar quais das aprendizagens da brincadeira a criança torna perene e quais são passageiras, e porque ela faz isso, evidentemente. Em relação ao jogo, cabe aqui retomar alguns autores que o definem como: “O homem não joga senão quando na plena acepção da palavra ele é homem, e não é totalmente homem senão quando joga” (Schiller apud Duflos, 1999).

Para Huizinga, jogo é:

“uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente da vida cotidiana” (Huizinga, 2007. p. 33).

Ainda é bom trazer a tona a observação de Kishimoto (2000), quando diz que a
brincadeira é o jogo infantil, não existindo diferença significativa em termos estruturais entre ambas atividades. Creio que isso aguça, momentaneamente, o leitor para aprofundar a questão em outra hora, embora discordamos da autora a respeito de usar os termos jogo e brincadeira como sinônimo. Voltemos então ao brincar/brinquedo.
Considerando a conceituação inicial de Brougeré, deve ser por isso que Benjamin (2009) dizia que brincar era libertar-se. Ele, mesmo quando não imita os instrumentos dos adultos, é o confronto, e na verdade, não tanto da criança com os adultos, mas destes com a criança. E diz: “a máscara do adulto chama-se experiencia”.

É bem provável, segundo o autor, que os adultos queiram, seguidamente corrigir as
formas e os tipos de de brincadeiras, ora:

“se as crianças devem tronar-se um dia sujeitos adultos completos, então não se pode esconder delas nada que seja humano. A sua inocência já providencia espontaneamente todas as restrições, e mais tarde, quando estas começam a ampliar-se aos poucos, o elemento novo encontrará personalidades já preparadas [...] mesmo extraviada, quebrada e consertada, a boneca mais principesca transforma-se numa eficiente camarada proletária na comuna lúdica das crianças” (2009. p. 87).

Este excerto de Benjamim coaduna com as reflexões de Gramsci3 sobre ser franco e contar tudo as crianças, isto pode ser observado na carta 14 de fevereiro de 1927, onde o italiano é enfático ao recomendar à mãe princípios para a educação de sua
sobrinha Edmea:

“lembra-se das minhas artimanhas para poder tomar um bom cafe, sem mistura de cevada e outras porcarias? Veja: quando penso nessas coisas, penso também que Edmea não terá tais recordações quando crescer e que isto influirá muito em seu caráter, determinando nela uma certa moleza e um certo sentimentalismo que não são muito recomendáveis neste tempo de ferro e fogo no qual vivemos. Uma vez que Edmea também deverá abrir por si só seu caminho, deve-se pensar em reforça-la moralmente, em impedir que vá crescendo rodeada pelos elementos da vida fossilizada do lugar. Penso que devem lhe explicar porque seu pai Nannaro, não pode voltar do exterior e como isto se deve ao fato de ele, como eu e muitos outros, pensamos que muitas Edmeas que vivem neste mundo deveriam ter uma infância melhor do que a que nós atravessamos e ela mesma atravessa. E devem lhe dizer sim, sem subterfúgios, que eu estou preso, assim como seu pai esta no exterior. Por certo devem levar em conta a sua idade e o seu temperamento, e evitar que a pobrezinha venha a se afligir muito, mas também devem dizer a verdade e assim acumular em seu interior recordações de força, de coragem, de resistência aos sofrimentos e às amarguras da vida” (carta 14 de 26/02 de 1927).

Ninguém nega a importância do brincar e do brinquedo no processo de socialização da criança, seja do ponto de vista filosófico, de aprendizagem, da criatividade, ou psicológico, o brincar e o brinquedo, podem desempenhar um papel especial no processo de educação da criança. Ainda recorrendo a Gramsci, ele expõe sua preocupação em relação ao uso de brinquedos pelos filhos:

“o principio do Meccano é por certo ótimo para os meninos modernos, escolherei a combinação que me parecer mais oportuna e depois lhe mandarei. [...] voce deve me informar sobre o modo como Délio interpreta o Meccano, isso me interessa muito porque nunca cheguei a uma conclusão sobre se o Meccano, tolhendo o espirito inventivo próprio da criança, será o brinquedo moderno que se pode recomendar, penso que a cultura moderna (tipo americana), da qual o Meccano é expressão, torna o homem um pouco seco, maquinal, burocrático e cria uma mentalidade abstrata, diferente daquilo que no seculo passado se entendia por abstrato” (cartas do carcere. 48, 57).

Já para Piaget (1973), os jogos e as atividades lúdicas tornam-se significativas à
medida que a criança se desenvolve, com a livre manipulação de materiais variados, ela passa a reconstituir, reinventar as coisas, o que já exige uma adaptação mais completa. Essa adaptação só é possível, a partir do momento em que em que ela própria evolui internamente, transformando essas atividades lúdicas, que é o concreto da vida dela, em linguagem escrita que é o abstrato. Assim, a psicanalise e a psicologia remetem o brincar ao inconsciente. Pela brincadeira a criança dominaria suas angustias, comunicaria sentimentos, fantasia intercambiando o real e o imaginário. Ora parece meio frouxa essa ideia do brincar como sendo inconsciente. Brincar com uma boneca ou carrinho é algo real para a criança naquele momento. A fantasia e obra do adulto. Nós é que classificamos a ação da criança como real ou imaginaria, considerando nosso arcabouço teórico, cultural, social e econômico.
É daí que aparece a noção de perspectiva cognitiva relacionada ao brincar. Isso pode ser visto em Oliveira e Mariotto (1997), numa leitura da cognição enquanto domínio de aspectos que o adulto vai precisar quando estiver nesta fase. Presumimos que seja por isso que, como diz Oliveira (2010):

“ao não aceitar o significado aparente do brinquedo, a criança ultrapassa a interpretação convencional acerca dele, ao contrario dos adultos que o brincar esta relacionado ao entreter-se com amenidades, por vezes visando a fuga da vida cotidiana, nas diferentes esferas [...] o estudo acerca do brinquedo é para entender a situação social das crianças em relação aos adultos”.

Por exemplo, brincar de boneca representa uma situação que ainda vai viver
desenvolvendo um instinto natural. Como benefício didático, as brincadeiras
transformam conteúdos maçantes em atividades interessantes, revelando certas
facilidades através da aplicação do lúdico. Outra questão importante é a disciplinar,
quando há interesse pelo que está sendo apresentado e faz com que automaticamente a disciplina aconteça. Concluindo, os benefícios didáticos do lúdico são procedimentos didáticos altamente importantes; mais que um passatempo; é o meio indispensável para promover a aprendizagem disciplinar, o trabalho do aluno e incutir-lhe comportamentos básicos, necessários à formação de sua personalidade.
Illich (1976), afirma que os jogos podem ser a única maneira de penetrar os sistemas formais. Suas palavras confirmam o que muitas professoras de primeira série comprovam diariamente, ou seja, a criança só se mostra por inteira através das brincadeiras. Como benefício social, a criança, através do lúdico representa situações que simbolizam uma realidade que ainda não pode alcançar; através dos jogos simbólicos se explica o real e o eu.

Referencias bibliográficas
Benjamim, Walter. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. Tradução:
Marcus Mazzari. Editora 34. 2002.
Brougeré, Gilles. Brinquedo e cultura. Tradução: Gisela Wajskop. Cortez. 2010.
Gramsci, Antônio. Cartas do Carcere. Tradução: Noenio Spinola. Civilização
Brasileira. 1978.
Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5 edição.
Perspectiva, 2007.
Macedo, Lino; Petty, Ana Lúcia S.; Passos, Norimar C. Os jogos e o lúdico na
aprendizagem escolar. Artmed. 2005.
Mattar, Denise (org). O lúdico na arte. Itau cultural. 2005.
Oliveira, Paulo de Salles. O que é brinquedo. Brasiliense. 2010.
Rodrigues, Paula. Questões de gênero na infância – marcas de identidade. Instituto
Piaget. 2003.
Santos, Santa Marli Pires dos. Brinquedo e infância. Vozes 1999.
_______ O lúdico na formação do professor. Vozes. 2011.
Poletto, Raquel C. Ludicidade e contexto familiar. Psicologia em Estudo, Maringá,
v. 10, n. 1, p. 67-75, jan./abr. 2005

NOTAS

1 -Artigo apresentado no Coloquio Internacional de Politicas de Curriculo. Joao Pessoa. 2011.

2- Prof. Adjunto do curso de Pedagogia da Universidade Federal do Tocantins. Membro do Núcleo de Estudos das Diferenças de Gênero, coordenador do Seminário anual Educação, Gênero e Infância.

3- Profª adjunta da Universidade Federal da Paraíba, curso de Letras e Programa de Pós Graduação da mesma instituição.

4- Antônio Gramsci. Estudou letras na universidade de Turim, escreveu como jornalista no Avanti e como escritor de teoria politica no L’ordine Nuovo. Ajudou a organizar, em 1921, o partido comunista. Casou com a violonista russa Giulia Schucht com teve dois filhos: Delio e Guiliano. Em 1926 foi preso. Durante o tempo no carcere escreveu 2.848 paginas daquilo que seriam conhecidos mais tarde como cadernos do carcere. Elaborou o conceito de hegemonia e escreveu sobre cultura, politica entre outros temas.

ARTIGO 2

MASCULINIDADES, TRABALHO E RENDA:

profissionalização e visibilidade do publico GBTT no Tocantins (1)

Eliseu Riscarolli (2)

Universidade Federal do Tocantins – UFT

Historicamente os homossexuais foram e continuam sendo vítimas da exclusão, perseguição, motivo de deboche e outros esteriótipos que denigrem a imagem do ser humano, sobretudo aqueles que não se enquadram nos padrões ‘socialmente aceitos’. Também e ‘verdadeiro’ que os sujeitos do sexo masculino sempre foram incentivados a reprimir aspectos mais dóceis ou de externar fragilidade – aspectos popularmente considerados como atributos femininos – como forma de se adequar à conduta masculina, sobretudo heterossexual da época em que vivem. No seculo XXI, pressupõe-se que tais barreiras sejam vencidas, sobretudo nas grande metrópoles. Isto é real num estado periférico como o Tocantins? Partimos do pressuposto de que o publico GBTT ao mesmo tempo que luta pelo reconhecimento de sua identidade de gênero, para não sofrer discriminação, precisa faze-lo também na questão da profissionalização, fato que socialmente dá a este publico maior reconhecimento pessoal. O presente trabalho visa refletir sobre a relação entre a construção da masculinidade, campo de trabalho, condições de vida, grau de escolarização e acesso aos bens culturais, considerando como grupo focal homossexuais residentes no estado do Tocantins. Assim, intencionamos investigar como os homossexuais do Tocantins conciliam sua vida profissional com a ‘conduta’ gay. Pretende-se com este estudo identificar elementos que permitam traçar um perfil do publico GBTT e caracterizar as profissões, grau de profissionalização deste publico. Analisar se as práticas profissionais determinam ou são determinadas pela identidade sexual do sujeito, e identificar até que ponto a escolha da profissão permite maior ou menor aceitação social.

Palavras chaves : Masculinidades, Trabalho, Tocantins, Renda, Identidade, Profissionalização.

O trabalho gera riqueza, já dizia o velho Marx no Sec. XIX. Como em toda sociedade, ha tipos de trabalhos socialmente indicados para homens e outros para mulheres. Com o publico GBTT isso não é diferente. Sobressaem-se as profissões como cabeleireiros, esteticistas, maquiadores, estilistas, figurinistas, personal treiners, professores – exceto na educação infantil – area da saúde, entre outras.

Como e onde está o publico GBTT no Tocantins em relação ao trabalho e ou profissionalização? É o objetivo deste trabalho. Aqui vamos adotar a terminologia GBTT porque nosso foco são aqueles grupos cujo papel de gênero seja o masculino e a orientação sexual sejam as variantes deste papel. Assim entendemos que, os nascidos na condição de masculino, exercem sua orientação como sendo: gays, bissexuais, transsexuais e travestis ou mesmo heteros.

Se na Europa e Estados Unidos, o masculino como objeto de estudo já apresenta uma tradição desde os anos 1970, na América Latina isso só se configura como foco de estudo depois de 1980. no brasil entretanto, isso só ocorre a partir dos anos 1990.

Assim, a perspectiva de gênero adotada a partir dos anos 1980, conduz a uma compreensão da condição da mulher entrelaçada com as diversas formas da condição do ser homem., tendo como ponto de partida que ambos estão imersos em universos sociais cujas relações assimétricas vão se constituindo segundo as representações sociais coletivas que são compartilhadas e perpetuadas nos diferentes espaços.

Independente do enfoque que se adote para classificar os estudos sobre masculinidade: essencialista, da ciência social, das definições normativas ou da semi-ótica (CONNEL – 1997), o fato é que este tema tem provocado novos olhares sobre os papeis desempenhados por homens na sociedade. Alem disso, quando se trata de turismo direcionado a determinados públicos, as pesquisas apontam que o publico GLBTT gasta em media o dobro do que outros grupos.

Assim, vamos adotar previamente o conceito de masculinidade como sendo ao mesmo tempo a posição em relação as relações de gênero e os efeitos destas praticas na experiencia corporal, na personalidade e na cultura (CONNEL – 1997).

Se durante sua vida o homem passa por experiencias que vão lhe ensinar o significado de desempenho do papel masculino, isso é de certa forma, reflexo dos ensinamentos da infância que o estimula a se afastar da experiencias interiores e pressionado a obter o melhor desempenho no que faz. Assim, desde cedo os meninos são educados a assimilarem a ideia de que por meio do trabalho serão reconhecidos e respeitados como homens.

O tempo passa e, aparecem as crises de identidade ou de papel de gênero que eles desempenham na sociedade, seja resultando do questionamento das fontes de prestigio e poder. Também e verdade que os homens de classes populares recebem menor cobrança acerca desse papel (OLIVEIRA – 1998), uma vez que aceitam com mais facilidade as atribuições que os papeis lhes pedem.

Todavia, segundo KIMEL (1997), a masculinidade homossexual é comumente vista como o modelo mais desvalorizado de masculinidade. Pelo fato de que esta se aproxima da feminilidade. Assim mais importante que reconhecer tais variações, o que realmente importa é compreender o significado das relações entre elas.

Na convenção masculina, o homem forte não chora, nem deixa transparecer fragilidade.

Não é de estranhar que, na representação sexista, o homem seja o portador do calor vital. O homossexual masculino fica no meio caminho e é definido como fresco. Esta mesma analogia está presente no seguinte gracejo, que sexualiza os elementos da natureza: No campo da sexualidade, isto ocorre de muitas maneiras. O pênis, órgão sexual externo e bastante visível, penetra a vagina, órgão sexual interno e quase invisível. Daí, existir a ideia de penetração como sendo um ato ativo, enquanto o “ser penetrado” passa a ser visto como um ato passivo. Lembre-se que ativo é definido pelos dicionários como aquilo que exerce ação, que funciona, que trabalha, que se move. Por exemplo, as pessoas que estão no mercado de trabalho fazem parte da população economicamente ativa (PEA), e os aposentados são inativos. Ativo também significa atuante, intenso, vivo, ágil e enérgico.

Para compreender melhor a amostra e mapear este publico no Tocantins, nos utilizamos de duas ferramentas para coletar dados acerca desse publico.

1- consulta ao site disponivel.com de onde coletamos dados acerca dos homens que se oferecem para relacionamento. Embora seja uma ferramenta, ele tem varias limitações: não encontramos a profissão do sujeito por exemplo e consequentemente a renda auferida desta profissão, o que dificulta parte da analise. 2- a segunda ferramenta foi a distribuição de um questionário cujo objetivo era traçar um perfil mais detalhado deste publico.

Corpo, inteligência e beleza também são atributos diferenciados por sexo. É admissível uma mulher bonita não tao inteligente, é ate normal. Entram nesse rol, as louras, as misses, as modelos que invariavelmente são objeto de piadas e preconceito. Já para os homens, a lógica é outra, pois a beleza física deles não é um pré-requisito para sua valorização social. Existe até uma inversão desse atributo, quando se diz, com evidente duplo sentido: É dos carecas que elas gostam mais (ALVES – 2004).

Na primeira ferramenta utilizada chegamos aos seguintes dados: há no estado do Tocantins 107 homens cadastrados no site em questão. Este publico esta dividido nas seguintes cidades:

 grafico 1

 Cidade qdade
Lageado 2
Cocalandia 2
Dianopolis 2
Guaraí 4
Araguaína 19
Palmas 68
Gurupi 4
Colinas do Toc 2
Paraiso do Toc 4
Arraias 2
Combinado 2
Abreulandia 4

A hipótese de que em cidades mais desenvolvidas, tanto do ponto de vista econômico quanto cultural facilita a visibilidade do publico GBTT é um deferencial na analise em questão. A literatura nos mostra que cidades pequenas tendem a ser mais conservadoras e menos tolerantes quando o assunto q homossexualidade masculina. Isso de certa forma, é reflexo das relações sociais e dos papeis atribuídos a homens e mulheres ao longo do tempo.

Se considerarmos o fator idade, temos o seguinte gráfico:

grafico 2

 faixa etaria  qtidade
ate 20 anos 3
de 21 a 30 42
de 31 a 40 34
de 41 a 50 14
de 51 a 60 5
mais de 60 2

Pelo gráfico, percebemos que a auto classificação do publico, se concentra na faixa etária de 21 a 40 anos, idade em que os homens estão naquilo que o IBGE chama de PEA – População Economicamente Ativa. Isso e compreensível, pois é mais ‘fácil’ assumir sua condição de homossexual quando há independência financeira em relação à família, fato que facilita a decisão de morar sozinho ou mesmo fixar residencia em outra cidade, via de regra, um centro maior, sobretudo aqueles que oferecem oportunidades de trabalho. O elemento falho no site é que não conseguimos identificar a profissão do cadastrado.

Quando consideramos o comportamento sexual do publico cadastrado no site, temos o perfil que segue:

grafico 3

comportamento quantidade
ativo 14
passivo 32
versatil 37
hetero 2
bissexual 11

As práticas sexuais e reprodutivas dos homens são geralmente caracterizadas pelo distanciamento emocional, agressividade, múltiplas parcerias e comportamento de risco. Evidentemente, não se pode homogeneizar a masculinidade ou a feminilidade, uma vez que existe o entendimento de que ambos devem ser tratados no plural. Todavia, apesar das diferentes masculinidades, os exemplos apontam para o fato de a linguagem estar impregnada da ideia de virilidade e do receio da emasculação. Vernacularmente, emascular é tirar a virilidade e o vigor, debilitar, mostrar-se fraco, desvirilizar, castrar. Neste sentido,quando um escritor diz: os vícios emasculam a vontade, ele não está apenas criticando os vícios, mas também definindo a vontade (o desejo, a decisão, etc.) comum valor masculino (ALVES – 2004).

Desse modo, a sexualidade para o homem é vista como uma questão de necessidade. Lembre-se que o homem bom de cama é aquele que tem energia, é quente, forte,durão e que dá conta do seu “trabalho”. Embora os dados sejam muitos tímidos, ate por ser fruto de um site de relacionamento, todavia, como o nome verdadeiro não aparece tendemos a crer que estes dados sejam verdadeiros ou muito próximos disso.

2- Da coleta realizada via questionário, embora em menor quantidade, há mais riqueza de informação do ponto de vista daquilo que nos fornece informações sobre a profissionalização, renda, faixa etária, condições de moradia, empregabilidade, violência e posição em relação aos diretos dos homossexuais.

Assim, temos:

Com relação a distribuição do publico que deu retorno ao questionário, as cidades são as maiores ou mais antigas do estado. A escolha dos entrevistados se deu mediante contato via email: alguns do rol de amizades, outros apenas de informações acerca de sua opção.

grafico 4

Em relação a faixa etária, percebe-se que a maioria absoluta concentra-se na faixa da PEA – população economicamente ativa do pais, fato que de certa forma, corrobora para que este publico também possa tomar decisões como por exemplo deixar a casa paterna e assumir sua sexualidade com menor grau de culpabilidade já que desfrutam de uma condição mais favorável. Este fato se corrobora quando observamos as profissões e a renda percebida pelo publico.

grafico 5

Embora muitos pesquisadores não aceitem uma relação direta entre o grau de escolaridade/renda/profissão exercida, não é possível negar tal inter-relação. Bourdieu já dizia qu nos anos 1980/90 que o capital cultural institucionalizado tem grande importância. Um homem pós graduado, homossexual, em idade economicamente ativa, produz e gasta, invariavelmente, o dobro do que o seu oposto hetero.

grafico 6

podemos perceber que o cruzamento das informações dos gráficos 3 e 5 reforçam o enunciado de Bourdieu sobre a estreita relação entre escolarização e a renda que os indivíduos recebem, reflexo do capital cultural institucionalizado pelo tempo em que o individuo usou para seu processo de aperfeiçoamento e profissionalização. Todavia há que ressaltar nesta coleta a particularidade de que os o grupo focal é do circulo de amizades do pesquisador que, se não inviabiliza alguma reflexões, não representa o perfil do que inicialmente queríamos, o publico Tocantins. Parte disso se explica pelo tempo curto da coleta. Uma população que sempre sofreu com preconceito e foi vitima de violência e esteriótipos da sociedade precisa estabelecer certa confiança com seu entrevistador pra lhe contar de sua vida.

grafico 7 e 8

Sobre a questão que solicitava enumerar em ordem de importância das politicas abaixo,  obtivemos:  discriminar a homofobia; regulamentar casamento entre pessoas do mesmo sexo; regulamentar direitos de previdência entre companheiros; regulamentar adoção de criança por casais homossexuais.

grafico 9

No quesito violência, os números são armantes. O pesquisador da GGB Luiz Mott, relata os seguinte dados sobre assassinato de homossexuais nas ultimas décadas no Brasil.

Período                                Numero de assassinatos

De 1960 a 1969                                 30 casos

De 1970 a 1979                                 41 casos

De 1980 a 1989                               369 casos

De 1990 a 1999                            1.256 casos

De 2000 a 2009                            1.429 casos

Jan a nov. de 2010                           205 casos

De certa forma os dados mais gerais corroboram com as informações mais locais, onde mais  de 70% já forma vitimas de algum tipo de violência. De certa forma, isso corrobora a necessidade de tornar a homofobia crime, como forma e evitar a escalada de violência crescente contra este publico.

grafico 10 e 11

Diferentemente da violência da qual a mulher é vitima e cujo local invariavelmente é a casa e seus agressores são pessoa da família, no caso dos homossexuais, a violência é praticada em ambientes fora da casa por pessoas estranhas.

grafico 12

Mesmo considerando que no ato sexual existe ação de ambas as partes, o sexismo consiste exatamente em identificar o ativo com a ação masculina e o passivo com a ação feminina, tal como  ocorre na esfera biológica, em que o espermatozóide penetra o óvulo. O senso comum associa a ereção do pênis às noções de rigidez, energia, ação e potência, que são associadas ao ativo, e não ao  passivo. Assim, na linguagem popular, diz-se que o homem  come a mulher, apesar da mulher  “engolir” o membro masculino. Na cultura androcêntrica, o homem é o sujeito ativo que  come e, como um objeto passivo, a mulher é comida. Isto explica por que o homem acha a mulher gostosa. A este respeito, existem pilhérias que definem a mulher como objeto de cama e mesa.

Corpo e inteligência também são atributos diferenciados por sexo. Cobra-se que os homens sejam racionais e persuasivos, enquanto se espera que as mulheres sejam emocionais e receptivas

Para FRY (1989), as identidades sexuais-afetivas são construídas em torno de quatro elementos: a) o sexo fisiológico; b) os papéis de gênero (associados ao sexo fisiológico); c) o comportamento sexual (referente ao ato sexual propriamente dito. Fry utilizará a dicotomia ativo/passivo); d) o que o autor chama de “orientação sexual”, que pode segundo ele ser hetero, homo, ou bissexual. Não podemos confundir esses termos do autor, que são utilizados de forma pretensamente ‘neutra’ para designar o objeto de desejo da pessoa, com os termos heterossexual e homossexual da medicina, por exemplo.

Frente aos dados aqui apresentados, percebe-se que o publico almeja a discriminação da homofobia como principal recurso de combate a violência. Uma sociedade não violenta faculta ao  cidadão, conduzir sua vida, estudar, profissionalizar-se.

Do ponto de vista do turismo e da economia, os dados dão conta de que, nos eventos direcionados ao publico GLBTT o desembolso diário destes cidadãos é o dobro daquele feito por  hétero em férias ou numa feira de negócios. Assim, reconhecer, investir, criar politicas publicas de  valorização e e direitos a esta parcela da sociedade não é nada mais do que ter a certeza do retorno seja na forma de enriquecimento cultural, apropriação de impostos, geração de empregos e promoção da igualde de de gênero de fato e garantido pela lei.

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

ALVES, J. E. D. A linguagem e a representação da masculinidade. Rio de Janeiro. 2004.

BORIS, G. D. B. Falas de homens: a construção da subjetividade masculina. São Paulo. Annablume. 2002.

BOZON, M. Sociologia da sexualidade. Rio de Janeiro. Editora FGV. 2004.

FRY, P. Para Inglês Ver: Identidade e Política na Cultura Brasileira. Rio de Janeiro: Zaahar, 1982.

MACHADO, L. Z. Masculinidades e violência: gênero e mal estar na sociedade contemporânea. IN: Masculinidades. (org) Schpun, M. R. São Paulo. Boitempo editorial. 2004.

MOTT, L. Homofobia – pesquisas mostram aumento da violência contra homossexuais. Agencia câmara. Ecodebate. Nov. 2010.

NOLASCO, S. O mito da masculinidade. Rio de janeiro. Rocco. 1983.

OLIVEIRA, P. P. Discursos sobre masculinidade. Revista Estudos Feministas. Rio de Janeiro. 1998.

SALEM, T. Homem… já viu né?: representações sobre sexualidade e gênero entre homens de classe popular. IN: Família e Sexualidade. (org) Heilborn, M. L. Rio de Janeiro. Editora FGV. 2004.

SIMOES, J. A.. & CARRARA, S. Sexualidade, cultura e politica: a trajetória da identidade homossexual masculina na antropologia brasileira . IN Cadernos Pagu. (org) Simoes, J. A. e Miskolci, R. N. 28 ano 2007. Campinas. 2007.

NOTAS

1- Artigo apresentado no IV Coloquio Internacional de Estudios Sobre Varones y Masculinidades. Montevideo. Maio de 2011.

2- Dr. em Educação. Pedagogo e professor Adjunto na UFT – Tocantins – Brasil – Membro do Núcleo de Estudos das Diferenças de gênero – NEDIG.

ARTIGO 3

ARTIGO 3

Posted on 28/03/2012

 

Sexualidade e gênero nas escolas do Bico do Papagaio (1)

Eliseu Riscaroli  2

Karlene Borges Cirqueira 3

É sabido que desde a oficialização da LDB 9394/96 e dos PCN as questões ligadas a diversos temas foram cunhadas como “temas transversais”, entre eles a sexualidade. Discutir ou trabalhar este tema ou as questões relacionadas à sexualidade na escola, tem se constituído num grande desafio, primeiro porque a formação recebida pelos professores esta muito aquém dos anseios da geração que freqüenta a escola; segundo porque a escola, em seu currículo, quando se propõe a realizar alguma atividade cujo objetivo é ampliar a reflexão sobre a sexualidade, cai no tradicional impasse de relacionar este tema com as questões pequenas de macho/fêmea sob a ótica do cristianismo e com isso desconsidera quase que completamente as interfaces ligadas ao gênero e a complexa teia que envolve a sexualidade que vão alem da heterosexualidade. Estas observações têm sido percebidas e realizadas anualmente por ocasião da realização anual desde 2004, do seminário Educação, Gênero e Infância no campus da UFT – Tocantinópolis e que tem desdobrado novas possibilidades de investigação sobre tais temas e suas variantes nas escolas e movimentos sociais do Bico do Papagaio (4).

Neste caso especifico, os dados são frutos de uma coleta realizada com estudantes de escolas publicas – 8ª serie e 2º ano do ensino médio – da cidade de Tocantinópolis, sendo, portanto, seus resultados uma primeira aproximação acerca de como a escola e seus professores tem se ocupado com esta temática e quais os recursos e estratégias que ela utiliza ao abordar a questão da sexualidade e às vezes a de gênero nas suas atividades curriculares anuais. Também tem por objetivo descobrir o que os jovens e adolescentes pensam sobre a sexualidade e confrontar os dados dos alunos com as informações da escola e dos professores.

Questões iniciais
O tema da sexualidade é recorrente na vida escolar, seja porque os alunos estão sempre interessados, pois ele “agrada”, seja porque os professores em sua maioria não conseguem satisfazer o desejo de informação dos adolescentes e jovens. Se os estudos feministas e mais recentemente as teorias sobre estudos de gênero contribuíram para que a sexualidade da mulher se desvinculasse do papel de mãe/genitora; por certo essa contribuição não surtiu muito efeito na formação de professores haja visto que os sujeitos mais reticentes em fazer essa discussão na escola são os próprios professores. Embora o tema do presente trabalho seja sexualidade na escola e tenhamos que nos reportar vez ou outra aos profissionais da educação, o objeto dessa nossa reflexão são apenas alunos/as.

Desse modo a discussão sobre a sexualidade na escola sempre tem cruzado nosso caminho quando alunas do curso de pedagogia manifestam interesse em realizar algum trabalho referente a sexualidade de crianças ou de professores. Diante disso compreendemos que na verdade as crianças não têm “problemas com a sexualidade”, nós adultos é que imaginamos que elas tenham os problemas que na verdade são nossos. Também há certa rejeição de professores/as responderem questionários ou doarem parte de seu tempo numa entrevista que aborde este tema. Assim, a idéia mais sensata nos pareceu ir em busca de adolescentes e jovens e tentar mapear suas angústias sobre o tema e de quebra colher dados sobre o trabalho que a escola e professores têm realizado em relação a isso.
Os dados aqui utilizados foram coletados por uma acadêmica do curso de pedagogia no segundo semestre de 2005 e servirá de base para a elaboração do TCC. Inicialmente a intenção da aluna era trabalhar com crianças da 3ª série do ensino fundamental, após uma conversa preliminar decidimos que uma investigação com adolescentes e jovens poderia colaborar sobremaneira com as próprias escolas e com o poder público na proposição de políticas para este segmento da sociedade, visto que os resultados poderiam ser apresentados nas escolas e na secretarias de educação e saúde do município.
O público da pesquisa foram alunos de uma 8ª série e um 2º ano do ensino médio dos Colégios Dom Orione e Colégio Padrão. Esta pequena imersão na vida dos jovens tem por objetivo colher informações preliminares sobre as representações deles acerca de sua sexualidade e como o tema tem sido abordado pela escola e pelos professores.
Também e verdade que na atualidade a construção da sexualidade da pessoa está muito imbricada naquilo que Bauman (2004) chama de “modernidade líquida”, mudanças rápidas e confusas fazendo emergir uma nova forma de relacionamento pautado na satisfação do desejo imediato. Assim o “ficar” soluciona os desejos, porém não cria/explica/fomenta uma responsabilidade-compromisso.

Analisando os dados

O trabalho se insere na perspectiva metodológica da micro-análise, querendo abordar a sexualidade como fenômeno educativo a partir das respostas dos questionários que os/as alunos/as da 8ª série e do 2ºano do ensino médio.
Dos cerca de 150 questionários distribuídos, 120 foram devolvidos e constituem a base de dados de nossa reflexão, sendo 53 dos alunos da oitava série e 67 dos alunos do ensino médio. O recorte dado à questão escolar se deve ao fato de que a escola é um espaço onde as conversas sobre o tema fluem com mais freqüência aparecendo explicitamente nas relações entre colegas muito embora seja desconsiderado do currículo formal ou apenas tratado como um apêndice – tema transversal – sem grande profundidade e na maioria das vezes com um viés teológico que não contribui para o esclarecimento que a questão exige.

Essa falta de conhecimento dos professores fica evidenciada quando perguntamos com que freqüência os professores abordam o tema na sala de aula, para o qual temos os seguintes dados:
O tema  na sala de aula    Turma   1 vez semana   1 vez mês       raramente
8ª série            8                      7                36
2º ano EM          7                    12                45

O público investigado é constituído de adolescentes e jovens cuja idade varia de 12 a 20 anos distribuídos nos seguintes grupos:
Idade      Turma     12 a14 anos     15a 17a     17a 19a    + de 20

8 série             39%              54%             9%            -

2ºano EM           –                55%             37%            8%

Em relação a sua opção sexual, os pesquisados manifestaram-se como sendo: 90% heterossexuais, 6% homossexuais e 4% bissexuais.
As condições socioeconômicas do público se enquadram naquilo que chamaríamos de classe C/D considerando os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Cerca de 93% moram em casa própria na companhia dos pais e 95% desejam ser pais para constituir família.

De modo geral as condições de emprego são representadas pelo funcionalismo publico, empregados da Tobasa Bio industrial e Frango Norte. Outra possibilidade é o trabalho na Usina Caimann no estado do Maranhão. Embora os jovens manifestem o desejo constituir família aquilo que seria uma barreira ‘natural’ – as condições econômicas precárias – os argumentos apresentados para a não concretização de tal fato foram não estar preparação e a carga de responsabilidade que isso acarreta na vida dos sujeitos.
Via de regra, a questão da sexualidade na escola e também na sociedade ganha relevância graças à ação dos movimentos sociais – feministas, gays, direitos humanos, grupos e núcleos de pesquisas nas universidades. De modo particular na escola ele timidamente se apresenta naquilo que se convencionou chamar de tema transversal, inadequado a nosso ver, pois fica implícito que a escola tem a função de contribuir na definição do papel sexual dos sujeitos e não refletir sobre as questões ligadas a sexualidade – desejo, amor, casamento, namoro, ficar, gravidez, entre outros - fato que não se resume a opção sexual, geralmente culminando numa admoestação moral sobre o comportamento dos adolescentes e jovens.

‘Orientação sexual’ como tema de currículo segundo Silva:
“surge como uma tentativa de preencher as lacunas de informação deixada pelas famílias e preparar as crianças e jovens para a vivencia de sua sexualidade prazerosa e saudável” (2003. p. 306).
Ora, a partir disso a autora deixa transparecer que a sexualidade poderia ser prazerosa se a escola discutisse o tema. Resta saber se a escola tem toda essa competência e disponibilidade. Mais ainda, se ela quer fazer isso, já que quando os jovens tem sua primeira experiência, ou o resultado dessa experiência resulta numa gravidez a primeira reação das instituições é recriminação, sobretudo se os envolvidos não usaram um método preventivo. Isso se reflete nas respostas dos sujeitos da pesquisa sobre com quem foi seu parceiro nas relações sexuais: 33,9% responderam que a relação foi com o/a namorado/a; 40,9% com amigo ou outra pessoa. Essa primeira relação ocorreu quando eles/as tinham entre 12 a14 anos. Assim, a questão da sexualidade no âmbito da escola ganha espaço mas perde em profundidade já que nas poucas vezes quando se discute sobre o tema isso é feito numa abordagem que não interessa ao público, muito embora alunos e professores defendam a importância dele como assunto pedagógico. Restam então aos movimentos sociais, grupos gays/glbtt e grupos de pesquisa nas instituições de ensino superior trabalharem com a temática.
À escola coube, através dos temas transversais – orientação sexual – inadequado ao nosso entendimento, uma vez que o papel da escola não é orientar, já o termo remete a escolha entre ser hetero, bi ou homossexual, realizar o trabalho de elucidar, explicar, conversar com adolescentes e jovens. Fato dificilmente enfrentado pelas questões já postas. Melhor seria discutir sexualidade como um elemento próprio do currículo já que este é um componente físico-biológico do sujeito; além de propor ao menos uma disciplina nos cursos de formação de professores para tratar do tema, uma vez que no roldão da interdisciplinaridade todos os professores devem ter um conhecimento
para poderem encaminharem as discussões quando elas aparecem na sala de aula.

Deste modo, sexualidade não diz respeito apenas à escolha do tipo de parceiro, mas também ao namoro, gravidez na adolescência, desejo, casamento, ficar, etc. nessa perspectiva discordamos de Silva (2003) ao afirmar que “o tema transversal orientação sexual, surge como tentativa de preencher as lacunas de informação deixadas pelas famílias e preparar as crianças e jovens para a vivencia de uma sexualidade prazerosa e saudável” (p.306). Ora, se o tema só aparece na escola porque a família não encontra tempo para fazê-lo temos o entendimento de que a escola abre mão de sua função social mais nobre conforme os art. 205 e 206 da CF e o art. 2º da LDB para assumir uma função assistencialista.
A importância do tema está no fato que ele é parte constitutiva do sujeito e não porque a família se nega a fazê-lo ou algo parecido. Cremos que na sua função pedagógica a escola pode contribuir na produção/construção de uma subjetividade, de uma possibilidade desejante que, se em muitos casos se mostra insubmissa, conflitante com o pacto civilizatório, revela também, certo silêncio, sobretudo das mulheres (Kehl. 1996. p 56/7).

Intimamente ligada à sexualidade dos humanos está a gravidez. Assim, entre os alunos da 8ª série participantes da pesquisa 33% afirmaram que em suas famílias alguma jovem engravidou antes dos 17 anos; já entre os jovens do 2º ano do ensino médio o índice sobe para 41%. Isso pode ser reflexo da pouca utilização do preservativo nas relações, apenas 30% afirmaram usá-lo. Já em relação a gravidez fora da família o índice salta para 73% e 74% respectivamente, permanecendo a idade de ate 17 anos. Embora o índice assuste, não houve tempo hábil para um levantamento na secretaria de saúde onde poderíamos verificar dados mais precisos em relação ao pré-natal e condições de saúde dos envolvidos, fato que demandará novas investigações.

Perspectivas …
Assim, o desenvolvimento da sexualidade seja no âmbito biológico, seja em sua dimensão psicológica, social e cultural, varia de individuo para individuo. Se as questões apresentadas aos professores pelos adolescentes e jovens resultam na constatação da desinformação do professor ou no ‘medo’ de tratar o tema na sala de aula, isso nos mostra que o tema sexualidade, como fenômeno educativo, implica não apenas num esforço de mudança pedagógica, mas, sobretudo cultural (Carvalho. 2005.p.07).

Desse modo, as conclusões preliminares apontam para um público novo cuja primeira experiência sexual acontece antes dos 15 anos, são adolescentes que moram com os pais e menos da metade usa algum tipo de contraceptivo, fato que confirma o alto índice de gravidez antes dos 17 anos. Outro dado levantado pela pesquisa, diz respeito à falta de compromisso/formação dos professores para lidar com este tema tão presente no cotidiano escolar, segundo os alunos, 67% raramente abordam o tema. Resta então, sugerirmos às escolas e a secretaria de saúde, maior atenção e definição de estratégias em termos de políticas de saúde e pedagógicas no sentido de desenvolver cursos e projetos que auxiliem professores e jovens no sentido de contribuir com uma pedagogia da prevenção, da atenção mais focada a este tema tão caro á sociedade, á escola e á família, uma vez que os reflexos da falta de planejamento e políticas de prevenção acabam, via de regra, forçando a jovem a abandonar a escola indo com isso aumentar os índices do INEP, do IBGE, da ONU em relação aos anos de estudo dos cidadãos, da qualidade de vida e do desnível em relação à renda aferida pro homens e mulheres com mais ou menos anos de estudo/qualificação profissional.

Referencias
BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos A Medeiros. São Paulo. Jorge Zahar. 2004.
BRASIL. Constituição Federal. São Paulo. Editora Ridel. 2002.
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Carlos R. J. Cury (org).rio de janeiro. DP&A. 2003. 6ª edição.
CARVALHO, Sumaya Persona. Sexualidade, educação e cultura: instantâneos de escolas de Cuiabá e Várzea Grande. Cuiabá. 2005.
DUARTE, Luiz Fernandes Duarte. A sexualidade nas ciências sociais: leitura critica das convenções. IN: Sexualidades e saberes – convenções e fronteiras. Rio de Janeiro. Garamoud. 2004.
KEHL, Maria Rita. A mínima diferença: masculino e feminino na cultura. Rio de Janeiro. Imago. 1996.
PISCITELLI, Adriana; GREGORI, Maria Filomena; CARRARAS, Sergio. (org) Sexualidade e saberes: convenções e fronteiras. Rio de Janeiro. Garamoud. 2004.
SILVA, Jane Felix. A professora de ensino fundamental e a orientação sexual na escola: além dos temas transversais. IN: Gênero e Educação: múltiplas faces. Carvalho, M. E. & Pereira, M. Z. (org). João pessoa. EdUFPB. 2003.
TORRES, Taluana Lais Martins. Educação, cultura e gravidez: trajetórias de alunas do ensino médio. Cuiabá. 2006. Anais do VIII Anped regional.

NOTAS

1- Texto apresentado no Congresso Internacional Fazendo Gênero. Florianópolis. 2006.
2- Professor na Universidade Federal do Tocantins, membro do Núcleo de Estudos das Diferenças de Gênero e doutorando em educação na Universidade Federal de São Carlos – SP.
3- Aluna do Curso de Pedagogia responsável pela coleta de dados nos Colégios Dom Orione e Padrão que resultará no trabalho de conclusão de curso intitulado “sexualidade de adolescentes e jovens a partir do contexto escolar”.
4- Região situada no extremo norte do Tocantins, na confluência dos rios Araguaia e Tocantins, composta de 25 municípios cujas atividades econômicas principais são a agricultura de subsistência, o trabalho com coco babaçu ou atividades ligadas ao funcionalismo público.

TEXTO 4

Trabalho,Gênero e Meio Ambiente: o dilema das quebradeiras

de coco de Campestre X Caimann [1]

Eliseu Riscarolli[2]

Neusani Oliveira Ives[3]

“Ô não derrube essas palmeiras,

 ô! não derrube os palmeirais

Tu já sabes que não podes derrubar,

precisamos preservar as riquezas naturais”.

Cantiga das quebradeiras durante o trabalho.

Autoria João Abelha

Resumo

Este trabalho visa apresentar os primeiros resultados do Projeto de Pesquisa: Gênero Trabalho e Cultura, mais especificamente do sub projeto “O impacto das novas tecnologias na vida das quebradeiras de coco de Campestre: o caso CAIMANN”, que se constituiu numa investigação acerca dos impactos sociais, culturais, políticos e econômicos (emprego e empregabilidade, condições de vida, inclusão e exclusão social, questões ambientais), causado à comunidade de Campestre depois da instalação da usina de açúcar e álcool citada. O foco de partida do estudo são os impactos sofridos pelas quebradeiras de coco babaçu a partir da implementação da modernização no campo (monocultura de cana-de-açúcar), ambiente em que desenvolviam anteriormente suas atividades de quebração de coco. Objetivamos identificar as estratégias de sobrevivência criadas pelas quebradeiras de coco após a implantação da indústria, além de investigar a participação da mulher nas atividades do extrativismo vegetal da comunidade X implantação da empresa CAIMANN de forma a registrar a história de vida dessas mulheres no contexto da formação histórica da comunidade. A metodologia utilizada para efetivação dos objetivos propostos centraram-se na utilização de entrevistas, questionários semi–estruturados com um grupo de oito quebradeiras de coco previamente selecionadas. Os primeiros resultados apontam para uma redução do espaço de trabalho das mulheres quebradeiras de coco, por ter havido uma diminuição muito forte na mata de cocais; exclusão destas mulheres no processo de produção industrial, como também, o aumento no número de casos de intoxicação de crianças devido ao uso do fogo na época de colheita da cana. Apesar de todos os problemas, a fábrica é vista como salvação para muitas famílias, não conseguem compreender que além de usurpar o espaço natural do babaçual, a Caimann está negando a elas o direito de trabalhar, condição primária de subsistência de toda comunidade humana.

Palavras-chave: Mulheres, Trabalho, Tecnologia agrícola, Meio ambiente.

1 INTRODUÇÃO

Não é mais novidade pra ninguém que as mulheres estão atuando nos mais diferentes setores da vida produtiva. Da cozinha à gerência de empresas multinacionais a participação delas cresce a cada dia. No entanto, velhas questões da divisão social e sexual do trabalho, base da opressão da mulher na sociedade e na família, devem ser buscadas da combinação do espaço cotidiano da empresa, do sindicato e da família da trabalhadora (Souza-Lobo. 1991. p. 42). Muitas são as discussões necessárias e urgentes, porém, aqui estaremos refletindo sobre o trabalho (ou a falta dele) das quebradeiras de coco de Campestre – Ma, tendo como pano de fundo o desmatamento do babaçual provocado pela instalação da Usina Caiman, das conseqüências ambientais e de saúde para a população, principalmente para as mulheres uma vez que a empresa instituiu a política de não contratar mulheres para os trabalhos de campo ou na maquinaria, exceto para funções de limpeza.

Estas mulheres trabalham com uma matéria prima produzida pelo babaçueiro (Orbignya phalerata martiana e oleifera – AREACACEAE). Por sua vez, esta é uma palmeira que pode atingir até 20m de altura, natural nas terras dos estado do Maranhão, Piauí, Mato Grosso, Rondônia, oeste do Pará e norte do Tocantins. Da planta tudo se aproveita: palha, tronco e fruto. Do coco, que cresce  em cachos com ate 500 frutos, pode se fazer carvão, extrair o óleo de babaçu que tem propriedades medicinais além de servir para  produção de sabonetes, shampus, cremes e combustível para  as lamparinas; da palha, cobertura para as casas do sertanejo, confecção de cestos, chapéus, peneiras, janelas; do tronco, madeira para suprir as necessidades da vida cotidiana das famílias que habitam a  mata dos  cocais, nome  dado à região onde a abundância de palmeiras é constante, entre elas a babaçu. Alem disso, o tronco apodrecido serve de adubo natural nas pequenas  plantações ao fundo  dos quintais das casas.

O nome babaçu é de origem tupi e seu nome científico faz referência ao paleontologista francês Dórbgny, que visitou a região entre os anos de 1826 a 1834. Esta   planta tem sido fonte de renda de milhares de famílias na região de transição do nordeste  brasileiro para a Amazônia e se constitui, fundamentalmente, num trabalho desenvolvido por mulheres sertanejas – quebradeiras de coco -  que fazem desta atividade sua principal fonte de recursos econômicos para manutenção de sua família, visto que na maioria das vezes o marido se encontra longe da casa, também trabalhando em atividades precariamente remuneradas.

Este trabalho tem despertado nas comunidades rurais um interesse em aumentar a discussão sobre a sustentabilidade econômica-social dos envolvidos, uma vez que tem aumentado o avanço das áreas agrícolas mecanizadas, sobretudo cana-de-açúcar, soja e milho na região em questão. Além disso, a procura por  produtos fabricados artesanalmente e de natureza orgânica tem crescido consideravelmente nos últimos anos. Uma das tentativas de fomentar e dar organicidade a programas de sustentabilidade agroambiental esta sendo a implantação do Consórcio de Segurança Alimentar de Desenvolvimento Sustentável Local – CONSAD, um sub-projeto do programa Fome Zero. Este  projeto esta sendo implantado na região do Bico do Papagaio – Estado de Tocantins.

Neste sentido, a discussão empreendida a seguir objetiva refletir sobre a vida das mulheres no sertão, especialmente das quebradeiras de coco babaçu do município de Campestre do Maranhão – Ma, das relações que elas estabelecem com o meio ambiente e dos desafios que são vencidos no cotidiano de modo a custear a subsistência da família em condições adversas e sem muita opção de escolha. Pretende-se ainda identificar as estratégias que elas utilizam(ram) para fazer frente às adversidades que o mundo do trabalho impõe aos trabalhadores do mundo moderno, seja na organização especifica delas, seja nas questões comum aos dois gêneros como a luta pela manutenção dos direitos trabalhistas e previdenciários.

2 AS MULHERES  NO  SERTÃO

O Bico do Papagaio é uma região de grandes contrastes: rica e pobre, verde e seca, cobiçada e desprezada. Ali é muito comum a presença de uma floresta de palmeiras de babaçu, responsável pela sobrevivência de milhares de famílias. Ela se localiza na confluência dos rios Araguaia e Tocantins, extremo norte do estado de Tocantins.

Mas os conflitos na região Amazônica não surgiram agora. Ela já enfrentou três ondas diferentes de ocupação/exploração e nesse contexto a mulher, de uma forma ou de outra esteve presente. Com os bandeirantes no século XVII e XVIII aparecem as primeiras notícias sobre as atividades desenvolvidas por mulheres tem-se a idéia de que “as relações sociais capitalistas desde o século XVIII até hoje, se equilibram precariamente na crença que as mulheres mais “ajudam” do que “trabalham” (Maluf, apud Bittar, 1995). Aqui as mulheres aparecem como simples esposa doméstica, como concubina ou na condição de escrava, seja para trabalhar na agricultura, seja para servir aos caprichos sexuais do dono. Raramente na condição de quem tem poder – um exemplo que foge a regra é Teresa de Benguela, líder de um quilombo no MT. No século XIX, essa invisibilidade vai sendo “descoberta” à medida que os relatos de naturalistas e viajantes, ou mesmo das próprias mulheres que vão se tornando público. Nesta direção, aparecem Cora Coralina (Goiás), Carlota Carvalho (Maranhão), entre outras.

Relatos de Tocantins (1877), Pinkas (1885), citados na obra de Simonian (2001) dão conta de quão opressivas eram as condições em que as mulheres viviam na floresta – seringais, castanhais e balatais. O certo é que elas sempre estiveram presentes na produção da vida material, muito embora desvalorizadas, invisibilizadas, silenciadas.

No século XX, com a chegada dos governos militares ao poder, novas orientações foram definidas no sentido de reorientar as políticas de ocupação, manuseio do solo, a posse das terras e da riqueza sob o pretexto de ocupar as fronteiras dos espaços vazios; finalmente implantando a política de preservar as riquezas naturais sob pressão dos países ricos. Contraditoriamente estes mesmos países devastaram suas reservas, mas, no entanto se reservam no direito de decidir sobre a vida dos habitantes da floresta, sejam eles indígenas, quebradeiras de coco, ribeirinhos, pescadores entre outros.

Mesmo assim, depois da metade do século, a Amazônia foi alvo de uma ocupação desordenada, durante o chamado milagre econômico do governo militar. O pensamento da época não priorizou a educação ambiental. Muitas cidades foram criadas em Rondônia, Mato Grosso, Pará, Amazonas e Tocantins. Junto havia a promessa de que a ocupação da Amazônia serviria para cuidar das fronteiras. Lá estavam, também, as mulheres cuja tarefa era:

[...] as mulheres, de modo geral, tem sido incumbidas de certas tarefas sociais cujo trabalho desobriga os homens, isto é, os libera da necessidade de cuidar não só de seu próprio corpo, como ainda dos lugares que habitam. Isentos disso, estão livres para ingressar num mundo mais abstrato, em conseqüência disto só tomam como real o que se ajusta ao seu mundo mental, o que contribui para que o trabalho das mulheres deixe de ser visto e representado como atividade humana real (Maluf,  apud Bittar, ano, p 76).

Como em outras regiões do país, a diversidade também é constante por aqui. Sertanejos e camponeses que há 300 anos cultivam a terra e usufruem a floresta para a sobrevivência de  suas famílias, indígenas, que lutam incessantemente pela manutenção de suas tradições e pelo direito de ser diferente, ribeirinhos, que às margens dos rios Araguaia e Tocantins fazem das águas sua condição de existência.

O Bico ficou conhecido com a movimentação provocada pela Guerrilha do Araguaia[4] nos anos 60 e mais tarde com os conflitos e assassinatos de posseiros e padres[5]  por causa da posse pela terra. É nesta região que encontramos a mata dos cocais, uma região cuja floresta é rica em palmeiras de variadas espécies[6] e que fornecem a subsistência de milhares de famílias – homens, mulheres e crianças. Das palmeiras tudo se aproveita, conforme já referido acima. A palha, o coco, a madeira e a sombra nos dias em que o sol escaldante torra a palha do capim e as esperanças do povo sombra que protege homens, mulheres e o gado. Sabonete, chapéus, cestos, redes, cosméticos e madeira são algumas das utilidades dadas às palmeiras da região.

Às mulheres está reservado um importante papel neste cenário de transição do cerrado para a floresta amazônica. Delas depende a vida de muitas famílias. No côco de babaçu está a sobrevivência de milhares de pessoas, sobretudo mulheres e crianças.

A presença das mulheres na região do Bico do Papagaio não é um fato novo. Elas aparecem na literatura a partir do século XVIII com mais freqüência. Relatos de Carlota Carvalho[7] sobre a vida cotidiana da região são um exemplo disso. Mas outras personagens fortes marcam a história deste lugar. D. Apolônia, fundadora da cidade de Boa Vista, atual Tocantinópolis; Beata Joana, braço direto do Frei Francisco; as intelectuais de Carolina[8] – Josina Ayres, Maria Luiza e Chrisantina Monturil. Se considerarmos o séc. XIX,  a figura de Cora Coralina não pode ser esquecida  já que o Tocantins não existia enquanto unidade federada.

Para falar de mulheres na região do Bico do Papagaio é preciso falar em dona Raimunda. Quebradeira de coco, agente sindical que incorporou a tarefa de organizar as mulheres que,  por décadas, ficaram à margem das decisões políticas e sociais das cidades e do próprio Estado. Raimunda é uma mulher que tem personalidade forte que não se abate por conversas de políticos de plantão. De estatura  baixa, mas com voz forte impõe respeito. Ela já andou pelo Brasil defendendo o direito de homens e mulheres que não tem nada além da esperança de poder satisfazer seu desejo de ter com a terra uma relação amorosa, alem de  fonte  de  riqueza para  a sobrevivência.

3 GÊNERO, TRABALHO E MEIO AMBIENTE

Se a participação de mulheres nos processos produtivos remontam as discussões de Marx (2002), as questões teóricas sobre gênero e desenvolvimento sustentável são bastante  recentes, começaram a florescer  nos anos  de 1970. Assim, abordar o trabalho de mulheres relacionado ao desenvolvimento sustentável requer que mencionemos a questão da degradação do solo em virtude do desmatamento, das queimadas que na maioria das vezes  é o único recurso para o pequeno camponês preparar sua roça, da escassez de água devido a falta de conscientização das populações, da utilização de herbicidas nas grandes plantações de soja, trigo, cana-de-açúcar e milho que se destinam a abastecer principalmente os mercados  da Europa. Da necessidade de organização dessas guerreiras  surge  por volta de 1980 o movimento das quebradeiras de coco babaçu como forma de protesto pela ocupação  das terras pelos fazendeiros.

O termo quebradeiras está associado a afinidades como parentesco, vizinhança, credo religioso e até afinidade política. De posse de um machado e um pedaço de madeira roliça partem para a floresta de babaçu para quebrarem o coco. Aquelas mais ágeis  conseguem até 10 kg de amêndoas depois de oito horas de trabalho diárias. O grande desafio das quebradeiras e a distância que devem percorrer para apanhar o coco já que os proprietários de terras na maioria das vezes as proíbem de quebrá-los dentro das fazendas.

Cerca de 300 mil mulheres estão envolvidas na atividade de quebrar o coco de babaçu nos estados de Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Maranhão e Pará. Tais famílias tinham e tem ainda dois desafios: uma relação com a natureza e outra com os fazendeiros, fato que fica evidenciado na fala a seguir:

“Antes a gente era sujeito a quebrar e depois de quebrar ainda enfrentar o fazendeiro, enfrentar o vaqueiro, enfrentar. Ir lá fazer o empecilho das derrubadas, então para a gente é uma mudança muito grande, muito embora economicamente a gente não sinta grande evolução, mas só o fato da gente dizer a palavra babaçu livre, para entrar e sair, coletar e quebrar, já é uma mudança grande (Maria Alaídes Alves de Souza, depoimento colhido via página da Assema, ver nota 13).

Neste ponto, percebe-se claramente o alerta de Marx (2002. p. 67)[9] “[...] o trabalhador não tem apenas de lutar pelos meios físicos de subsistência, deve ainda lutar por alcançar trabalho”. Esta fala da quebradeira sobre os impedimentos para a realização do trabalho faz  referencia  à Lei do Babaçu livre.

Com base na Lei Estadual N. 4734 de 1986 a associação das quebradeiras inicia um movimento pela aprovação de leis municipais[10] em alguns municípios do estado do Maranhão, entre eles Lago do Junco Lei N. 005/97; Lago dos Rodrigues Lei N. 032/99; Esperantinópolis Lei N. 255/99 e São Luiz Gonzaga Lei N. 319/2001 que tornam os  babaçuais  espaços  de  livre acesso para o trabalho das  quebradeiras.

Os babaçuais cobrem uma área de cerca de 18 milhões de hectares, numa região de transição entre o semi-árido nordestino e a floresta amazônica. Muitas vidas foram ceifadas na defesa do espaço de trabalho das famílias. Mais tarde com a construção das rodovias Belém-Brasília e Transamazônica, as famílias começam uma outra batalha: a de defender o espaço dos babaçuais dos grileiros  e jagunços  que a mando  dos  proprietários  de fazendas invadem as terras para  garantir a posse  ao patrão (Martins. 1989.)

A vida na floresta depende uma negociação continua, seja entre os membros da família, seja entre os grupos de extrativistas e aqueles que querem a terra para negócio, para lucrarem ou mesmo para servir de camuflagem às práticas ilegais como trabalho escravo e refúgio de traficantes, esta última luta ganhou visibilidade nos chamados empates[11]. Mesmo assim, as mulheres da Amazônia brasileira estão dando um novo colorido às lutas e desnudando as inúmeras facetas da exploração que o capital impõe as mulheres – indígenas, ribeirinhas, quebradeiras de coco, camponesas, afro-descendentes, prostitutas entre outras.

Os traços colonizadores do Tocantins, Maranhão, Pará, Goiás e Mato Grosso mesmo apresentando características diferenciadas, têm, também traços comuns. Independente da época de colonização, todos foram ocupados para suprir a avidez dos bandeirantes pelas riquezas da região. Com eles veio o gado e com isso a ocupação de grandes áreas para as fazendas foi empurrando os posseiros e indígenas para o sertão e mais tarde, expulsando uns para as cidades e confinando outros em reservas.

Aqueles/as que permaneceram no campo se depararam com uma segunda situação de desconforto: a chegada da modernização agrícola e a mecanização de milhares de  hectares de terras na região Centro-Oeste e alguns estados da região norte como Rondônia e Tocantins.

4 DESAFIOS DO TRABALHO  NA FLORESTA

Mas a vida na floresta não é apenas o que Rede Globo mostra em sua tela. O IDH na Amazônia é extremamente baixo, praticamente inexistente. No caso do Estado do Tocantins o índice é o 17° da nação brasileira, com 0,710 (2000)[12]. Já no caso do Estado do Maranhão o IDH é de 0,647. Este índice diminui se tomarmos como exemplo os municípios que instituíram a lei do Babaçu[13]. No relatório de 2001, o Brasil foi considerado um país com médio IDH. Já a Costa Rica e a Suíça estão classificados como países de alto IDH, fato no mínimo estranho para dois países em que um pode ser classificado como de primeiro mundo e o outro de ´terceiro´.

Políticas de desenvolvimento sustentável têm tomado conta das discussões dos grupos organizados que dependem da vida direta das riquezas da floresta, rios e outros ecossistemas da natureza do qual algumas milhares de famílias estão diretamente dependentes quanto a sua sobrevivência. Além da questão do desenvolvimento sustentável, outros dois fatores influenciam diretamente a qualidade de vida das famílias amazônicas: o acesso à educação e à saúde pública.

Se verificarmos o nível de acesso e produção do conhecimento na região amazônica, veremos que ela oferece uma riqueza de oportunidades. Entretanto, a considerar-se que são as universidades que detêm a supremacia sobre o desenvolvimento de tecnologias do mundo moderno, na região enfocada, temos apenas sete universidades federais das 54 existentes no país[14]. É também nesta região, que se concentra o maior índice de analfabetismo do país, juntamente com o nordeste brasileiro.

Na questão da saúde, os dados não são muito animadores. A distância é um dos fatores “naturais” com o qual os habitantes da floresta têm de conviver. A falta de hospitais com equipamentos e de profissionais que se dispõe a trabalhar no interior da Amazônia  são  fatores complicadores. Desnutrição e problemas ligados às verminoses, malária, dengue são as doenças mais comuns. Mesmo assim, os dados da OMS (2002) indicam que a esperança de vida para mulheres é de 72 anos contra 65 anos para homens. Dados como estes são importantes para podermos compreender a luta das mulheres e homens que ficam esquecidos pelo poder público local, estadual e federal. Somente são lembrados quando se aproxima o período eleitoral.

O estudo das condições de trabalho antes e pós implantação da usina se caracteriza numa tentativa de identificar as situações socioeconômicas vividas por essas famílias que inicialmente viviam do extrativismo vegetal, da roça de subsistência e da pecuária de poucas rezes. Agora se vêem inseridas num processo imposto pelo modelo econômico onde a tecnologia dita as regras e a monocultura passa a ser a única forma de trabalho.

Uma comunidade que por muito tempo vivera da atividade de extração do coco babaçu se vê agora com seu meio de subsistência usurpado. Tal fato porem não eliminou por completo essa atividade, ela ainda é desenvolvida apenas com finalidade de suprir necessidades caseiras mais prementes. A introdução de outra forma de produção não impede de que as mulheres preservem traços da cultura local, dos costumes invisíveis e subvalorizados pelo processo de modernização da produção.

Segundo dados preliminares colhidos na entrevistas com quebradeiras do município de Campestre – MA, depois da instalação da Usina Caiman um alto índice de pessoas  com diabetes passou a fazer parte da população (este fato depende de verificação na secretaria de saúde municipal/estadual a fim de comprovar ou não sua veracidade. Pode ser um resultado  da mudança cultural nos hábitos alimentares, ou então algum elemento químico utilizado na produção do açúcar que tenha provocado tal manifestação). Tem aumentado consideravelmente a intoxicação de crianças devido ao uso do fogo na época da colheita da cana. Além disso, os babaçuais foram exterminados para dar lugar à monocultura da cana.

Agora é preciso caminhar em média até dez quilômetros para poder encontrar algum capão de babaçu para poder retirar o óleo que será utilizado na cozinha, principalmente nas festas grandes. Ainda de acordo com as entrevistadas, não se vive mais do babaçu, apenas  é usado para consumo próprio das famílias. Se não, veja-se:

[...] a gente não quebra como quebrava antes, porque nem tem, mas a gente comia, vestia e calçava era do coco (Maria da Cruz Almeida – 70). Desde os 12 anos comecei a quebrar coco, hoje ainda quebro, não como antigamente, quando cheguei neste lugar, comia, vestia e calçava ‘as custas do coco, era o que a gente tinha aqui, hoje não dá mais, só quebro pra tirar azeite pra comer (Maria Dinalva dos Santos Carneiro – 52)[15].

Quando indagadas sobre a chegada da usina na região, as opiniões divergem. Apesar de reclamarem que os babaçuais foram dizimados, elas reconhecem que a chegada da empresa  foi um bem para o município, mesmo não tendo clareza acerca dos malefícios e de que estes são maiores do que os benefícios.

[...] melhorou a vida das pessoas que trabalha nela, muitos sobrevivem às custas da usina, tem casas boas, móveis bons. Mas também destruiu muitas coisas, como o coco, a mata pra fazer roça… A Caiman acabou com tudo. Mas não maldigo a Caiman, porque se não tivesse ela como o povo iria viver? Só do coco? Não dá mais pra viver só do coco. Com a usina há trabalho no verão e no inverno, si você querer (Maria Dinalva dos Santos Carneiro).

Essa atividade de quebrarão de coco, ainda persistente mesmo que apenas para consumo doméstico, para utilização do leite e do azeite no preparo de temperos, carnes, bolos além do uso na medicina caseira para cicatrização de ferimentos, eliminação de manchas ou ingerido como purgante se mantém como um dos traços da cultura regional.

Outra questão que elas abordam nas falas diz respeito ao trabalho das mulheres na usina. Ou melhor, à eliminação dos postos de trabalho ocupados por elas e que foram suprimidos.

[...] seu menino, pra mim foi bom uns tempos, mas aí entrou outro gerente e tirou as mulheres, elas ficaram sem trabalho. Trabalhei nove meses com carteira e mais alguns de diária. Antes da usina a gente  vivia do babaçu, mas ela chegou a acabou. Eu fazia qualquer serviço. Cortava cana, capinava, plantava. Mas isso acabou. Ouvi falar que a usina não ia contratar mais mulheres porque elas ficavam grávidas (Maria da Hora Oliveira, 55).

Embora haja contradição nas falas das mulheres, essa é a condição daquelas que não tiveram acesso aos bens culturais produzidos pela sociedade, como a educação. Mesmo que em outras épocas homens fossem encontrados na atividade de quebração, ela é essencialmente uma atividade feminina, pouco valorizada economicamente.

Conseqüentemente, essa modalidade de trabalho sofre de dupla discriminação, por atividade feminina e por não ser um atrativo econômico. Tal situação, segundo Simonian (2001) se caracteriza pela invisibilidade do trabalho das mulheres em algumas atividades, fato que não se coloca como problema para elas próprias. Logo, se não vêm reconhecimento de seu próprio trabalho, seja social ou econômico, não conseguem compreender que as questões ligadas a esse reconhecimento limitam seu campo de visão fazendo com trabalhem com a  dubiedade  de que  mesmo  destruindo a  floresta de babaçu, provocando  intoxicação pela fumaça da queimada, pela exploração do trabalho,  pela não contratação do trabalho das mulheres,  a fabrica  seja  a salvação de muitas famílias.

De fato, elas não conseguem perceber e compreender que alem de usurpar o espaço natural do babaçual  à usina  nega a estas mulheres o direito ao trabalho, condição  primária  de subsistência de toda comunidade humana. Todavia, o desvelar dessa condição é sobretudo uma tarefa das próprias mulheres. Romper as amarras do patriarcalismo, do capitalismo e da discriminação que em certos momentos é reforçada por elas próprias. O desafio e lento, mas não impossível.

5 ORGANIZAÇÃO DAS MULHERES

O trabalho das mulheres no Bico pode ter começado com algumas mulheres isoladas, mas à medida que tempo foi passando elas se organizaram. Elas se articulam numa série de entidades que se propõem a desencadear ações desde a conscientização para o uso racional dos furtos da terra, até a proposição de políticas públicas para viabilizar a permanência dos camponeses no campo com condições de trabalho.

Entre as organizações que atuam no Bico estão o Conselho nacional dos Seringueiros – CNS; a Alternativa para Pequena Agricultura TO – APA-TO; o Fórum de Desenvolvimento Local Sustentável (FDLIS); a Comissão Pastoral da Terra (CPT); a Associação das Mulheres do Bico do Papagaio – ASMUBIP; Visão Mundial;  Sindicato de Trabalhadores Rurais –STR e inúmeras associações de pequenos produtores. No estado do Maranhão a Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão – ASSEMA, criada em 1989 é a entidade que oferece assessoria técnica e apoio à organização dos trabalhadores rurais, dentre eles as quebradeiras. Também na região Tocantina, em virtude da criação da Reserva Extrativista do Ciriaco – Dec. N. 534/90; da Reserva Extrativista da Mata Grande – Dec. N. 532/90 e da Reserva Extrativista do Extremo Norte do Tocantins – Dec. N. 535/90 surge em 1998 a Associação Intermunicipal de Mulheres da região Tocantina – ASSIMT[16]. Fruto dessa articulação nos municípios e regiões de alguns estados, surge na década de 90 o Movimento Interestadual das Quebradeiras de coco Babaçu – MIBCQ[17].

Alguns poderiam se perguntar, porque as mulheres não se organizam em entidades exclusivamente de mulheres já que durante muito tempo elas foram deixadas à margem do processo de construção de ações de cidadania e política. Isso pode parecer correto mas, na primeira conversa com essas mulheres elas são categóricas em afirmar que a vida cotidiana não é feita apenas por mulheres e sim em companhia de seus maridos companheiros e ou amigos. Todavia, num primeiro momento não negam que a construção da identidade da mulher é importante e é lá que elas, inicialmente, se reconhecem enquanto sujeitos no processo de reconhecimento de sua identidade enquanto trabalhadoras.

Segundo as próprias mulheres essa compreensão limita o campo de atuação delas frentes as políticas sociais. Embora defendam a participação das mulheres nos movimentos, querem que ao mesmo tempo os homens façam parte da luta, pois entendem que a divisão já se estabelece pela questão de serem pobres. Embora considerem importante a preservação dos babaçuais, suas falas não abrem mão de um “emprego” cujo estabilidade  de à  família uma condição possível  de sobrevivência.

No caso em questão, as mulheres quebradeiras do município de Campestre – MA, são uma pequena representação deste trabalho que encontra-se na sua primeira fase de execução. Através de entrevistas com mulheres cuja atividade principal era  a quebrarão de coco, pode-se constatar inúmeros problemas advindos da modernização tecnológica: eliminação da floresta de babaçu; não contratação de mulheres como mão de obra nos  canaviais; agravamento das condições de saúde  de crianças e adultos devido a queimada  na época da safra e do alto grau de diabetes decorrência da safra mal elaborada no início das atividades da Usina Caimann – fato que ainda precisa ser constatado via dados da secretaria de saúde.

Com a implantação da usina a fonte de renda das centenas de mulheres foi eliminada no município. Muito embora elas não sejam beneficiarias de contratação por parte da empresa, contraditoriamente defendem a permanência da usina no município pois assim seus esposos e filhos têm uma fonte mais segura de renda, ao menos durante a safra- já que nem todos têm contrato por prazo indeterminado. Não conseguem perceber que os malefícios são maiores que os benefícios oferecidos pela usina.

6 DISCUSSÃO E NOTAS CONCLUSIVAS

Tomando os temas apresentados até aqui – trabalho, meio ambiente e gênero – é necessário fazermos algumas reflexões sobre essas relações, nem sempre conscientemente construídas ou compreendidas por parte dos sertanejos, mas que é consciente na ação do capital.

Como afirmou Engels (1995. p. 2) “[...] fator decisivo na historia é, em última instância, a produção e a reprodução da vida imediata”. Produzir e reproduzir a vida imediata tem sido a luta das quebradeiras nos últimos 50 anos de história da região da mata dos cocais. Inicialmente lutando contra as adversidades de uma região inóspita, depois contra os pistoleiros a mando de fazendeiros que nos anos 60/70 tomaram posse de imensas fazendas e hoje lutando contra a investida do capital agroindustrial que avança sobre os estados do norte/nordeste para, a qualquer custo, reproduzir sua estratégia de lucro. A luta, independente de como se manifesta, é a forma de suprir as necessidades primárias do ser humano. Porém, é preciso ressaltar algumas observações:

1-      Se em tempos passados, para o capital, o trabalho das mulheres foi um componente importante para sua reprodução, agora, a despeito das novas tecnologias que permite a automação de grande parte do processo produtivo, ele pode simplesmente descartar o trabalho não só de mulheres como o dos homens, principalmente se tiver idade superior a 35/40 anos, se forem analfabetos, entre outros. È  claro que esse descarte tem nuances, em determinadas situações toda e qualquer mão-de-obra será bem vinda, principalmente nestes tempos de fabricas temporárias que migram como migra o lucro de banco em banco e de país para país.

O descarte do trabalho das mulheres, sob o pretexto de que elas engravidam com freqüência, foi a estratégia adotada pela Usina Caiman. Também é importante registrar a abundancia de mão-de-obra masculina uma vez que não há outras industrias na região e o poder público – prefeituras e Estado – não consegue absorver nem oferecer trabalho a toda a população economicamente ativa. Contraditoriamente, essa prática da usina nega dados de pesquisas em que o trabalho de mulheres é apresentado como sendo mais produtivo porque elas são  mais assíduas, disciplinadas, organizadas, tem visão de futuro, etc (Souza-Lobo. 1991; Kofes. 2001; Bruschini & Pinto. 2001; Pereira. 2003; Costa & Camino. 2003). Tais fatos são reforçados pelos dados do IBGE (2000) que aponta o aumento do numero de mulheres chefes de família.

Todas essas questões têm seu fundo de verdade, porém, há muitas armadilhas subsumidas nas intenções do capital. Uma delas é que a trabalhadora rural teria mais condições de implementar ações para a emancipação completa em relação às fontes de opressão (Fiúza. 2001). Ledo engano, pois as mudanças tecnológicas podem sim alterar a divisão sexual e social do trabalho, mas vai continuar a reproduzir material e simbolicamente a relação operário x patrão (Bourdieu. 1996). Logo, também é ilusório pensar que essa relação simbólica pode ser vencida apenas pela conscientização. Oferecer oportunidade de estudo, qualificação, participação política, gestão e controle da produção da vida material e espiritual são elementos importantes, diria fundamental. Também é necessário reconhecer que a participação das mulheres nas diferentes esferas da vida pública tem crescido, sobretudo pelo trabalho desenvolvido por inúmeras entidades como as que já citamos anteriormente.

2-      Outro ponto a ser destacado nesta reflexão diz respeito à relação mulheres e meio ambiente. Ela é reflexo da cultura regional. Dificilmente vemos hortas caseiras por aqui, as já existentes são iniciativas de associações de moradores que objetivam muito mais complementar a renda das famílias do que propriamente criar o hábito de ingerir legumes e verduras. É bem verdade que à medida que as mulheres vão cuidando e produzindo na horta comunitária, o hábito, lentamente, vai sendo criado. O fato é que a idéia de que a recuperação do meio ambiente pode estar mais relacionada às atividades da mulher tem ganhado força, inclusive na política governamental, quando estabelece como princípio a titulação da terra em nome da mulher. Esta pode ser uma estratégia interessante, porém, não resolve nem o problema da reforma agrária, nem o da degradação ambiental e muito menos os ligados ás questões das mulheres, pois, tão importante quanto o título da terra, são a implementação de uma política eficaz, garantia de preço, capacitação técnica, vias de transporte, bem como saúde e educação de qualidade no campo. Do contrário, as iniciativas que visem valorizar o trabalho das mulheres até mesmo em setores do mercado controlado por homens, acabam reforçando a idéia de que o trabalho delas é “perfumaria” (Fiúza. 2001. p. 94). Essa concepção atribui à mulher mais intimidade com a natureza e só serve para quem pensa a relação homem/mulher com a natureza em termos de oposição, retomando a velha tese de que a mulher está para a natureza assim como o homem está para a cultura, tese já refutada a um bom tempo.

3-      Por ultimo, restam algumas palavras no que se refere à questão da emancipação da mulher. Engels (1995. p.182) afirma que “[...] a emancipação da mulher só será possível quando ela participar, em grande escala, em escala social, da produção e quando o trabalho doméstico lhe tomar um tempo insignificante. Tal condição será alcançada com a indústria moderna, que permite o trabalho da mulher em grande escala e tende, cada vez mais, a transformar o trabalho doméstico em uma indústria pública”. A afirmação não é de todo falsa, pois o trabalho na fábrica cria melhores perspectivas de emancipação pelo fato de o coletivo ser, em tese, mais homogêneo, mas ao mesmo tempo acentua a exploração para obter mais valia, tome-se como exemplo a indústria de calçados, onde o espaço de trabalho está sendo deslocado da fábrica para a casa dos trabalhadores/as sob a forma de trabalho terceirizado. Desse modo, o trabalho executado pela mulher, cuidando da terra e dos animais, é fundamental para assegurar a subsistência da família enquanto o companheiro se ocupa no trabalho da usina ou migra a procura de trabalho na época de entressafra. Todavia este trabalho da mulher não pode ser visto apenas como “ajuda” ou “perfumaria”. Nem pode ser responsabilizado pelas questões ambientais produzidas pelo capital. No caso das quebradeiras de Campestre, a indústria as alijou duplamente: por exterminar o babaçual, fonte de trabalho original e por impedir a contratação de mulheres para os quadros da empresa. Diante disso, um fato que causa estranheza é que não vimos nem ouvimos nenhuma manifestação por parte das (ex) quebradeiras no sentido de organizar-se. Isso, de certa forma, reflete a posição do Maranhão no índice do IBGE,  quando constata entre na população de 25 anos ou mais, apenas 2% tem escolaridade em nível superior. O estado ocupa a última posição do ranking brasileiro (IBGE. PNAD. 2002.).

De todo modo, o trabalho das quebradeiras, sua organização e resistência não podem ser pensadas simplesmente para satisfazer a indústria de cosméticos ou a indústria do turismo ecológico; é preciso repensar a política agrícola, as formas de capacitação, a implementação da Lei do Babaçu Livre nos outros municípios onde este recurso existe, do financiamento para projetos, entre outros, caberia finalizar dizendo que a emancipação da mulher é antes uma tarefa dela, mas não só dela, e que a cada nova mulher eu se liberta do machismo e da opressão, liberta com ela outras mulheres e homens e, se no caminho as pedras e espinhos são freqüentes, há sempre a beleza da floração dos ipês, dos cajueiros e porque não dizer das margaridas. É a luta para não ser estrangeira em sua própria terra (Woolf. 1977. apud Falcon. 1991).

REFERÊNCIAS

ABRAMOVAY, M; CASTRO, M. Gênero e meio ambiente. São Paulo: Editora Cortez; UNESCO,1997.

BITTAR, M. As três faces de eva na cidade de Goiás. Goiânia: Kelpes, 2002.

BOURDIEU, P. A Dominação masculina. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil. 1999. (Tradução: Maria H. Huhner).

BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Plano Nacional de Amostragem Domiciliar. Brasília. 2002.

CHAUL, F. Coronelismo em Goiás: estudos de casos e famílias. Goiânia. Kelps, 1998.

CARVALHO, M. E. P. de; PEREIRA, M. Z. da C.Gênero e educação: múltiplas faces. João Pessoa: Ed. Universitária/UFPB, 2003.

FALCON, L.Mujer y poder político. Goiânia. Kira Edit, 1991.

FARBER, S. M; WILSON, R. H. L. O que é a mulher. Brasil/Portugal. Fondo de Cultura. 1966. (Tradução: Sylvia Sales Oliveira Jatobá)

FERAZ, S.O movimento camponês no Bico do Papagaio: sete barracas em busca de um elo. Imperatriz: Ética, 2000.

MAFEI, M. Sangue na terra: a luta das mulheres. São Paulo: Ícone, 1985.

MASSI, M. Vida de mulheres: cotidiano e imaginário. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

MARTINS, J. Caminhada no chão da noite: emancipação política e libertação nos movimentos sociais do campo. São Paulo: HUCITEC, 1989.

MARX, K. Manuscritos econômicos e filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2002.

PENA, M. V. J.Mulheres e trabalhadoras: presença feminina na constituição do sistema fabril. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

PERROT, M.Mulheres, operários e excluídos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

ROSALDO, M. Z; LAMPHERE, L.A mulher, a cultura a sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. (Tradução: Ankier & Gorenstein).

SADER, M. Espaço e luta no Bico do Papagaio. 1986. São Paulo, Tese. (Doutorado em Geografia). Universidade de São Paulo, 1986.

SAFFIOTTI, H. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987.

SCOTT, J. Gênero: uma categoria útil de analise. Educação e Realidade. Porto Alegre. n.16 jul-dez. 1990. p. 5-22.

SIMONIAN, L. T. L. Mulheres da floresta amazônica: entre a cultura e o trabalho. Belém:NAEA/UFPA, 2001. 270 p. Ilustrado.

SOUZA-LOBO, E.A classe operaria tem dois sexos: trabalho, dominação e resistência.  São Paulo: Brasiliense, 1991.


[1] Trabalho apresentado na forma de comunicação oral  no Congresso Internacional Educação e Trabalho – representações sociais, competências e trajectorias profissionais. Aveiro – Portugal.02 a 04 de maio de 2005.

[2] Professor Assistente da UFT e doutorando da UFSCar.

[3] Aluna do curso de pedagogia da UFT campus de Tocantinópolis.

[4] Movimento armado ocorrido na década de 60 às margens do Rio Araguaia que tinha por objetivo combater a política instituída pelo regime militar com apoio do governo dos E.U.A. Alguns dos integrantes do grupo armado foram exilados, outros mortos. Entre os integrantes do grupo de rebeldes estavam José Genuíno e José Dirceu, membros do governo Lula.

[5] O caso mais noticiado de assassinato ocorrido no Bico do Papagaio foi o Pe Josimo Tavares ocorrido em 1985 no escritório da Comissão Pastoral da Terra, na cidade de Imperatriz – MA.

[6] Entre as espécies da mata de cocais estão: buriti, babaçu, buritirana, jussara, tucum, bacaba, piaçaba, pupunha, macaúba entre outras.

[7] Letrada residente no Maranhão que viajou pelos rios Tocantins e Araguaia fazendo relatos de suas impressões sobre a vida cotidiana. Filha da Elite maranhense, sua obra de maior prestigio é O sertãosubsídios para a historia e geografia do Brasil. Ética. 2000.

[8]

[9] Marx. K.  Manuscritos Econômicos e Filosóficos. Martin Claret. São Paulo. 2002. P. 67

[10] No geral esse instrumento jurídico estabelece áreas de preservação do babaçu e áreas de cultivo da roça. Garante o livre acesso das quebradeiras ao babaçual, independente da área ser pública ou privada. Também trazem no seu bojo princípios  de educação ambiental além de estabelecer multas  em caso de desmatamento desordenado. Nos municípios de Capinzal do Norte, Lima Campos, Itapecuru, Dom Pedro e Timbiras o projeto se encontra em fase de discussão nas câmaras municipais.

[11] Segundo Simonian, empate é uma ação socio-politica que visa impedir o desmatamento da floresta, especificamente dos seringais, foram organizados em fins de 1970 sob a liderança do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia e de Xapuri.

[12] www.rankbrasil.com.br  acesso em 12/07/2004.

[13] Campestre do Maranhão que ainda não possui uma lei especifica mas se constitui no lócus  deste  trabalho tem IDH de 0,633.  Os municípios que instituíram a lei são: Lago do Junco com IDH de 0,567; Lago dos Rodrigues com IDH de 0,575; Esperantinópolis com IDH de 0,593 e São Luiz Gonzaga do Maranhão com IDH de 0,543. www.frigoletto.com.br/GeoEcon/idhMA.htm  acesso em 12/07/2004.

[14] www.capes.gov.br   acesso em 12/07/2004.

[15] As informações  deste e dos dois depoimentos seguintes foram colhidos em entrevistas com as quebradeiras de Campestre do Maranhão em novembro de 2003.

[16] Informações colhidas na pagina da revista eletrônica www.tipitima.hpg.ig.com.br  acesso em 27/05/2004.

[17] O MIQCB promoveu quatro encontros interestaduais. São Luís (1991); Teresina (1993); São Luís (1995) e Imperatriz (2001).

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s